quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Mácula sem mácula
A tarde vinha cinza de um frio sem data, ali permanecia há algumas horas, semideitada, pés nus.
O colorido da tarde se rendia ao rubi do vinho e ao som leve da vitrola.
As longas pestanas emprestadas pelos cílios postiços lhe davam um ar Noir. A boca sem batom, as maçãs salientes do rosto magro, levemente avermelhasse à medida que as horas sucumbiam.
Lentamente fechou os olhos e num esboço infantil franziu o cenho e estirou a língua para fora num rito engraçado e particular e ao mesmo tempo patético.
As longas unhas tingidas num vermelho claro se espalmaram entre as coxas e um longo suspiro evaporou de sua alma.
Ela se dispôs a imaginar, o olhar agora enegrecido perpetuava a longa tarde no Hotel; a beira da estrada, já datava uma década e meia, os dois desceram de mãos dadas, os olhares se amando, ele a despindo, e a cada peça tirada um olhar demorado para a pele que ia sendo exposta.
O último objeto retirado foi o colar de pérolas e a fez girar e girar, tomando-lhe a boca entre os dentes, mordiscando-a, ela se assusta, não pode se macular, ele sorri e a beija com mais sofreguidão, mas sem machucar os inchados lábios que agora estavam rubros de paixão.
Ele a pega nos braços e a deita delicadamente sobre os lençóis e a observa como se nunca antes houvesse vislumbrado outra mulher.
Sorrindo roça-lhe a barba por fazer na face sedosa, ela suspira inebriada com tamanha sutileza. Ele a segura nos braços e a beija nos pontos sensíveis, possíveis e imagináveis, de repente a penetra firme e propositalmente a beija longamente, como se isso dependesse a vida dos dois.
Entre suspiros, gemidos suaves, deliram em êxtase, derradeiros chegam ao clímax, ofegantes se olham, se amando numa velocidade impressionante.
Para ela o sonho acaba ali, a realidade a espera, os dias estão contados...
De volta à vida, ela entreabre um sorriso calmo, duas lágrimas rolam, a taça de vinho ecoa para debaixo do divã, sua mão reina inerte, ela não mais reage.
--- Solange Mazzeto
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