sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Metade

A tarde transitava entre o morno e o gelado, a atmosfera rugia, o sono vinha correndo louco pelas veias. A noite tinha sido estranha, com longos gemidos da gata dos vizinhos no cio. Eu corria meus olhos por entre as pessoas no sossego do feriado, São Paulo fica calma em feriados. Tinha ido à reunião do Teatro pela manhã, feito a leitura de mais algumas cenas, e mesmo com tudo anotado no papel, a mente fervilhava. Cabeça a mil; onde podia falar mais rápido, onde podia respirar, questionava os porquês de cada sílaba da minha mais nova personagem, a Sheyla, quem era, porque era e onde era. Eternas perguntas, eterno malabares na cabeça do ator.
A noite caiu mansa, menos voluptuosa do que à tarde. Arrumo os apetrechos da Sheyla. Ajeito as coisas dela, tão dela e tão minhas, estou quase colocando ela no colo, ela precisa de mim e eu dela, as duas inteiras. Não gostamos de nada pela metade. TEXTO - Solange Mazzeto Imagem: desconheço a autoria

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