domingo, 11 de novembro de 2012

Domingo

Esse domingo foi de escutar Cazuza, Capital Inicial, Cássia Eller e Renato Russo, e fazer uma bela carne de panela, com um belo arroz, depois um bolo de chocolate. E cortar os pelos da minha cachorrinha e dar um banho bem gostoso nela. Domingo que finalmente depois de quase cinco meses na casa nova, coloquei alguns quadros na parede e mais que finalmente meu oratório foi colocado, só com uma santa, Nossa Senhora Aparecida, porque os demais santos foram degolados por um gato que tive, não era bem meu gato, era o gato do vizinho, que cismava de morar na vizinhança, e uma noite, ele quebrou todos meus santos. Mais aterdezinha fui caminhar, eu, filha e a Candy, a nossa cachorrinha. Andamos pela florida Praça que temos há uns quarteirões de casa, voltamos jantamos e fui lá fora aguar as plantas, enquanto fazia isso, um rapaz na janela do prédio em altos gritos, olhei, e ele lá, no celular na maior briga com a namorada. Briga de casal, coisa chata pra um domingo à noite. Mas acontece, acho que a segunda-feira deles já vai amanhecer azeda. Entrei, e depois de mais de uma hora quando fui fechar minha janela do quarto de dormir, eis que escuto em alto e bom tom: “Melhor terminarmos”. Que triste! Lembrei na mesma hora do término do meu romance há uns seis meses, se não me engano. Mas fazer o que né? Relacionamento nascem e morrem todos os dias. Uns a gente supera com mais destreza, outros com menos, mas a gente supera. Olhei na janela e vi o rapaz sentado em frente à TV com um bico enorme, olhos grudados na tela, o semblante entre a raiva e a tristeza do momento, talvez naquele momento a cabeça dele estivesse fulminando de pensamentos, ou não, homens tem a caixinha do nada. E agora estou aqui, com sono, e escrevendo o que vi hoje, o que senti. Tomara que os namorados voltem que tenha sido só um ataque de ciúme, ou uma desavença boba que depois de um, ou dois dias tudo se resolve. Que venha a segunda-feira, nos brindar de amor. Boa noite. -Solange Mazzeto

sábado, 10 de novembro de 2012

Sabe?

Sabe quando você pisa na varanda da sua casa, e os respingos da chuva beijam seus pés e você se recorda do tempo de infância e do cheiro de chiclé? E lá se vão tantos anos, tantos caminhos, e muitos enganos... e algumas poucas, mas boas certezas. E então vem ao coração as palavras da mãe, o carinho do pai, a ternura e as confusões das irmãs, irmãos, gente que faz parte de sua história, que faz do seu tempo de agora a realidade do amanhã. E você olha pro céu que chove e dá um suspiro tão fundo que seu peito até dói...dor de saudade, falta de colo, dor que dilacera e evapora com a lágrima que rola certeira pra molhar tua boca, a mesma boca do beijo, do sonho, da vida...E você se surpreende de ter vivido até agora e ter vontade ainda de balançar na gangorra da tua vida e sentar na solidão da sua lida e deitar a cabeça no colo de Deus e saber-se ser amado e amar até o último inimigo, porque é através disso que você crescerá e poderá se elevar. -Solange Mazzeto

domingo, 28 de outubro de 2012

Dia de sol

Era dia de sol, abrindo a janela o ar da manhã produzia nela carinho, e ela vira pela primeira-milésima-vez, a árvore, que parecia ter braços, e os tinha, braços carregados de cor/flor.
Texto e Fotografia: Solange Mazzeto

sábado, 13 de outubro de 2012

Sábado

Acordei sem o sol, abri os olhos, puxei a coberta e fique prestando atenção na minha respiração, ouvindo os sons internos do meu coração. Fiquei ali nesse semissono, querendo me convencer a não raciocinar. Até que levemente adormeci, e depois de duas horas me levantei, olhando pra fora pela janela semiaberta percebi que uma garoa fina e insistente ia acobertando o chão da Vila onde resido. Olhei com melancolia pra árvores que os vizinhos, em sua ignorância haviam arrancado, estava cheio de flores cor-de-rosa e algumas amarelas e porque faziam sujeira, tinham sido brutalmente assassinadas. Muito se diz da matança de gente, de bicho e eu digo da matança das plantas. Pois bem, hoje eles terminaram a matança, não direi mais nada, me calarei diante de tanta ignorância assassina. O dia hoje está quase findo, um sábado atípico, não tive ensaio da Peça de Teatro, porque emendamos com o feriado. Hoje depois de alguns meses fui à feira, eu gosto de bater papo com aquela gente que acorda todo dia de madrugada, arrumam barracas, carregam caixas e nos oferecem além de produtos frescos, seus sorrisos, seu humor, sua dor...no alegre colorido. Depois fui andar na garoa, agasalhada que nem um robô, e com um lenço cobrindo parcialmente meus cabelos, fui caminhar pra não pensar. Chegando em casa, enquanto preparava um chá, o celular toca, leio o nome, pisco, e alegre atendo e escuto: ‘queria saber de você’. Oh...! Também quero saber de você. O frio é espantado, as árvores cortadas vão nascer novamente, a natureza é sábia; deixa-se cortar e volta mais forte. Assim como nós, quantas vezes nossas asas foram podadas? Quantas vezes nossos sonhos foram desfeitos? Quantas palavras foram engolidas? A noite vem chegando, a cachorra dorme, o gato me olha por cima querendo talvez me dizer: ‘creia em você, veja seu reflexo, veja sua estrela, tire o pó da testa, colha morangos na estrada, se perfume com alecrim'. --TEXTO E IMAGEM: Solange Mazzeto

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mácula sem mácula

A tarde vinha cinza de um frio sem data, ali permanecia há algumas horas, semideitada, pés nus. O colorido da tarde se rendia ao rubi do vinho e ao som leve da vitrola. As longas pestanas emprestadas pelos cílios postiços lhe davam um ar Noir. A boca sem batom, as maçãs salientes do rosto magro, levemente avermelhasse à medida que as horas sucumbiam. Lentamente fechou os olhos e num esboço infantil franziu o cenho e estirou a língua para fora num rito engraçado e particular e ao mesmo tempo patético. As longas unhas tingidas num vermelho claro se espalmaram entre as coxas e um longo suspiro evaporou de sua alma. Ela se dispôs a imaginar, o olhar agora enegrecido perpetuava a longa tarde no Hotel; a beira da estrada, já datava uma década e meia, os dois desceram de mãos dadas, os olhares se amando, ele a despindo, e a cada peça tirada um olhar demorado para a pele que ia sendo exposta. O último objeto retirado foi o colar de pérolas e a fez girar e girar, tomando-lhe a boca entre os dentes, mordiscando-a, ela se assusta, não pode se macular, ele sorri e a beija com mais sofreguidão, mas sem machucar os inchados lábios que agora estavam rubros de paixão. Ele a pega nos braços e a deita delicadamente sobre os lençóis e a observa como se nunca antes houvesse vislumbrado outra mulher. Sorrindo roça-lhe a barba por fazer na face sedosa, ela suspira inebriada com tamanha sutileza. Ele a segura nos braços e a beija nos pontos sensíveis, possíveis e imagináveis, de repente a penetra firme e propositalmente a beija longamente, como se isso dependesse a vida dos dois. Entre suspiros, gemidos suaves, deliram em êxtase, derradeiros chegam ao clímax, ofegantes se olham, se amando numa velocidade impressionante. Para ela o sonho acaba ali, a realidade a espera, os dias estão contados... De volta à vida, ela entreabre um sorriso calmo, duas lágrimas rolam, a taça de vinho ecoa para debaixo do divã, sua mão reina inerte, ela não mais reage. --- Solange Mazzeto

domingo, 23 de setembro de 2012

Observando

E lá estava observando o vai e vem das pessoas num shopping qualquer da cidade de São Paulo. Comprei um sorvete cheio de confeitos e sentei pra saborear. Ali fiquei fazendo fita, cada colherada uma olhadela pro povo. Chegaram quatro pessoas e uma senhora na cadeira de rodas, as mãos danificadas pelo reumatismo. A fisionomia de uma tristeza enorme. Os familiares dessa senhora sentam-se e a cadeira de rodas fica em um ângulo ruim para os transeuntes. Alguns desviam, outros batem e a senhora se sobressalta, estou prestes a levantar e agir, mas não faço, espero mais um pouco, como não percebem que além de estarem semi bloqueando a passagem, ainda estão incomodando a velha senhora? A olho, ela cabisbaixa, vez ou outra olhando a tagarelice dos familiares que nem ao menos a olham, ou a botam a par da conversa. Ela me olha de esguelha, nos olhos a vida ainda pulsa, devagar, mas pulsa, ela está lúcida. Quando eu ia levantando pra arrumar a cadeira, eis que surge a babá da senhora, todos se levantam e saem dali, a velha senhora passa por mim, lhe dou um sorriso tímido, ela me olha, não retribui de imediato, parece em câmera lenta, mas ela tenta, nos olhos um momento efêmero de algum sinal de alegria. --Solange Mazzeto

sábado, 22 de setembro de 2012

Sobre ser mãe

Acordei sobressaltada, com aquela angustia que uma mãe sente na madrugada quando acorda, e vê que o filho não está em casa e já é tão tarde. Mãe é padecer no Paraíso como apregoam, mas digo mais, mãe é sofrer no TCC, é sofrer vendo que o cordão cada vez mais esganiça. Não sou paranoica, não ligo toda hora, não fico controlando, mas como é difícil as fases e fases do ser que é mãe. --Solange Mazzeto

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ela é assim

Todos os dias, ao se levantar, ela vai até a janela, olha e enxerga o além. Num sopro deixa pra trás a angústia matinal que a tenha atormentando de alguma forma. E desce as escadas pra se largar ao chá e ao pão matinal, às vezes, um pão fresco, de outras um pão amanhecido, que ela enfeita pra ficar bom. Em seguida a dádiva do banho, pra desfazer os resquícios da madrugada. Ela se volta ao espelho e repete frases soltas. Respira fundo e solta o ar iluminando o mundo, agradecendo a vida. --Solange Mazzeto

domingo, 9 de setembro de 2012

Sobre conhecer

A tarde vinha quente, mas não só de sol, vinha quente de alegria, de pensamentos bons que me transmitiam bem estar. Já tinha preparado almoço, lavado a louça, lavado a cachorrinha e agora estava prestes a saborear um Bolo de Chocolate, esses pra se comer com um bom café, ou um bom chá. Me veio na mente a delicia toda de um belo homem que conheço. Aliás, conhecer é força de expressão, porque no fundo ou mesmo no raso da amizade à gente mal conhece, a gente acha que conhece. Conhecer seria conhecer os pensamentos mais íntimos, ou conviver, enfim, conheço e não conheço. Mas conheço de olhar. De falar. De sentir algo de bom. Conheço vai! --Solange Mazzeto

sábado, 8 de setembro de 2012

Sábado a noite

Sábado a noite, temperatura amena, sem nenhum vento frio, peguei Candy, coloquei coleira e lá fomos andar na Praça predileta dela, cheia de labirintos e degraus. Ficamos dois anos sem ir nessa Praça, confesso que estava saudosa também, revi o pé de jaca, acho engraçado pé de jaca, como pode uma fruta tão grandona e pesada ficar dependurada né! E assim fomos aqui e ali revendo lugares que gostamos e nas lâmpadas dos postes mariposas, muitas, pena não ter levado a câmera. Ao chegarmos sentimos o cheiro ardido do jasmim em flor, falamos oi pros vizinhos e entramos. Coleira tirada e Candy pra casinha, agora é deitar e adormecer que amanhã é domingo. ---Solange Mazzeto

Demasiado

E o sujeito era belo, um outono parido, cheio de reentrâncias. Ele imperava o sentido do mistério e derramava ouro líquido das pestanas. De sua boca exalava sapiência. Formoso, sem alarde, cordial, parecia tecido na lamparina. Um catavento sem cor, e quando ‘soprado’ exalava âmbar. --Solange Mazzeto

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Metade

A tarde transitava entre o morno e o gelado, a atmosfera rugia, o sono vinha correndo louco pelas veias. A noite tinha sido estranha, com longos gemidos da gata dos vizinhos no cio. Eu corria meus olhos por entre as pessoas no sossego do feriado, São Paulo fica calma em feriados. Tinha ido à reunião do Teatro pela manhã, feito a leitura de mais algumas cenas, e mesmo com tudo anotado no papel, a mente fervilhava. Cabeça a mil; onde podia falar mais rápido, onde podia respirar, questionava os porquês de cada sílaba da minha mais nova personagem, a Sheyla, quem era, porque era e onde era. Eternas perguntas, eterno malabares na cabeça do ator.
A noite caiu mansa, menos voluptuosa do que à tarde. Arrumo os apetrechos da Sheyla. Ajeito as coisas dela, tão dela e tão minhas, estou quase colocando ela no colo, ela precisa de mim e eu dela, as duas inteiras. Não gostamos de nada pela metade. TEXTO - Solange Mazzeto Imagem: desconheço a autoria

Contraste

A sombra da árvore contrastando com as vermelhas luzes dos carros, e tudo parecia irreal, um vento suave soprava perpassando por mim, sensações conhecidas, quase febris. Enquanto caminhava vi um casal adolescente, os dois banhados em luz, as pupilas lúcidas com o brilho suave que tem um casal apaixonado. Figuravam pela avenida, submersos nos versos que só mãos dadas sabem escutar. Parei um instante com meus pensamentos e sorri internamente relembrando meu primeiro amor, a secura na boca, o coração disparado, os olhos vertendo ansiedade diante do primeiro romance, a cabeça flutuando de como seria beijar na boca... E bailou por mim todas as fases de uniões que tive, perfilaram meus amores, meus amantes, meus namorados, uma fila nem tão grande, mas significativa. E vi o quanto é difícil à aceitação de hoje estar solteira, sou mãe, casei, nunca serei solteira novamente, não tem como, a ingenuidade do primeiro contato de lábios, a primeira emoção de laços inquebráveis não existe mais em mim. Não me sinto triste com isso, mas também não me sinto alegre. E a vida segue. -Texto - Solange Mazzeto Imagem: desconheço a autoria